Uma das mais importantes solicitações que os profissionais que trabalham com drogadicções recebem é sobre como proceder para que as pessoas que têm problemas com drogas aceitem ser ajudadas. É claro que os problemas serão diferentes dependendo do tipo de droga de abuso, incluindo as chamadas drogas “lícitas”, como a nicotina e o álcool, mas algumas atitudes comuns podem ser trabalhadas, e podem resultar em uma mudança de conduta, pelo menos em relação a buscar ajuda. Uma primeira dica é que é preciso muita paciência; o sentimento de traição é muito forte nos familiares, e atrapalha muito, pois distorce e impossibilita fornecer ajuda. É inerente ao uso de substâncias apelar à mentira e à omissão, mesmo que isso não faça parte da personalidade do usuário. Ele vai “precisar” usar de ambas inúmeras vezes em que decide usar substâncias, pois em caso contrário seria impedido ou teria que enfrentar forte oposição. Também porque muitas vezes precisa conseguir dinheiro, e desviar de outras demandas é uma maneira de obtê-lo. Então, vista desta forma, a mentira é um sintoma e um meio, uma forma de conseguir usar, e portanto, não é a intenção de enganar que a move e sim a demanda por drogas ou álcool, ativada intensamente. Entender isso alivia a raiva por estar sendo enganado, e eventualmente até roubado, pois o usuário é vítima e não vilão nesta história, mesmo que não se considere como tal.
Outro obstáculo a superar é a dificuldade de entender, para quem não sofre de uma compulsão por drogas, a intensidade deste tipo de desejo. Antes disso, é preciso compreender o próprio desejo. Como é possível que alguém queira tão intensamente algo que lhe destrói a vida, dando-lhe em troca pouco minutos de prazer, quando o faz… nem sempre? Este mesmo “querer” que o leva a pôr a perder toda uma reestruturação de vida em andamento, voltando a hábitos antigos e destrutivos e ao uso desenfreado. Então é hora de buscar se informar sobre essa “doença”, como ela assume o controle do cérebro e da consciência, como ela se desenvolve, e como ela busca se manter, ativamente, “sequestrando” um dos sistemas mais poderosos do cérebro, a busca de recompensa e a motivação, e outro não menos importante, de vigilância e ansiedade. Só depois de entender a neurociência e a psicologia do usuário é que realmente vamos adquirir a capacidade de ajudá-lo.
O próximo passo é localizar onde e como buscar apoio profissional, pois assim que conseguirmos que ele busque ajuda, temos que ajudar a encontrá-la o mais rápido possível, porque facilmente essa disposição pode se desvanecer. Essa busca vai ter que se encaixar nas possibilidades econômicas e geográficas da pessoa que a busca, e pode variar desde recursos gratuitos do atendimento público, a serviços de alto padrão e custos mais elevados. Um profissional que gerencie esta escolha pode ser de grande valia, podendo ser procurado pelo familiar ou por um amigo exatamente para esta finalidade.
Por fim temos que iniciar as conversas mobilizadoras, e estas sempre devem ser voltadas à motivação positiva, mais do que à negativa. Então as vantagens de não usar sempre devem predominar sobre as desvantagens. Salientar ou exagerar os prejuízos do uso, com insistência, podem gerar o efeito contrário. Como fazer então? Bom, normalmente isso faz parte da terapia, que deve ser realizada por um profissional treinado em dependência química, mas podemos fazer em casa? Com paciência podemos, sim. É esperar o momento e sugerir, observar, se dar conta. Se houver muita resistência, o melhor é não insistir. Aí então a sugestão será: Porque não procurar alguém que possa ajudar?
Deixe um comentário